Qual é o melhor indexante a ter em conta quando se faz um crédito à habitação? Olhando apenas para os dois últimos anos, a resposta correcta é: Euribor a três meses. Segundo os cálculos feitos pelo Diário Económico, tendo em conta o caso de uma família com um empréstimo à habitação no valor de 150 mil euros, a pagar em 30 anos, indexado à Euribor a três meses e um ‘spread' de 1%, esta família teria pago em 2009 e em 2010 um total de 13.785 euros em encargos da casa. Se a mesma família tivesse optado por associar o seu crédito à habitação à Euribor a seis meses, o custo total subiria para os 14.792 euros. Ou seja, mais mil euros do que no caso anterior.
O grau de poupança é ainda maior quando comparados os encargos indexados à Euribor a três meses com os custos de um crédito associado à Euribor a 12 meses. Neste último caso, a família teria pago em 2009 e em 2010 um total de 15.217 euros. Ou seja, uma diferença de 1.400 euros face ao primeiro caso.
Esta vantagem tem uma explicação: os contratos com a Euribor a três meses começaram a reflectir muito rapidamente a descida que as taxas interbancárias protagonizaram desde Outubro de 2008 até Março do ano passado. Como resultado, de três em três meses, os consumidores com este tipo de contratos conseguiram ver a sua prestação mensal a reduzir-se de forma acelerada. No entanto, apesar desta vantagem demonstrada nos últimos dois anos, tal não significa que a Euribor a três meses seja sempre o indexante mais vantajoso. Isto porque se, por um lado, é a taxa que permite reflectir mais rapidamente a descida dos juros, também o indexante que reflecte mais depressa a subida dos juros. Isso mesmo ficou visível em 2008- ano em que as taxas interbancárias atingiram o seu pico máximo. Nesse ano crítico, quem revisse a prestação mensal em Abril, teria acumulado encargos totais (em 2008) com o pagamento da prestação da casa no valor de 10.620,78 euros, se o seu empréstimo estivesse ligado à Euribor a três meses. Por outro lado, os encargos teriam descido para quem tivesse um contrato indexado à Euribor a seis meses para os 10.186,47 euros.
Os números mostram que a escolha do indexante mais adequado é uma questão que varia consoante as condições do mercado. Aliás, muitas vezes, a escolha do indexante nem sequer fica ao critério do cliente, já que alguns bancos oferecem um único modelo de taxa variável. Os números do Banco de Portugal, relativos a 2009, mostram que 54% dos créditos à habitação de taxa variável estavam ligados à Euribor a seis meses, 38% à Euribor a três meses e apenas 6% eram créditos ligados à Euribor a 12 meses.
Apesar da incerteza face ao futuro, as simulações permitem verificar que em 2011, ter o crédito indexado à Euribor três meses vai continuar a ser vantajoso, pelo menos, face aos empréstimos indexados à Euribor a 12 meses (não existem futuros de Euribor a seis meses que permitam calcular).
Por exemplo, quem tiver um empréstimo de 150 mil euros, indexado à Euribor a três meses e rever a prestação em Abril deverá acumular um total de encargos em 2011 com o pagamento da prestação da casa e que deverá rondar os 7.007 euros. Para este cálculo foram tidos em conta os valores previstos nos contratos de futuro sobre a Euribor a três meses. Já quem tem o empréstimo indexado à Euribor a 12 meses, os encargos totais em 2011 vão situar-se nos 7.348 euros. Ou seja, mais 341 euros face a um contrato com a Euribor a três meses.
Um dado é certo: independentemente do indexante que utilizar, os encargos com o empréstimo da casa vão subir este ano, complicando a vida de muitas famílias.
Perante estes números, Natália Nunes, responsável do gabinete de apoio ao sobreendividado acredita que o número de casos de famílias sobreendividadas vai aumentar. "Já existe este ano um grande aumento do número de pedidos de ajuda das famílias ao nosso gabinete. Não tanto pelo facto da Euribor estar a subir, mas mais por outros factores, como o aumento de preços, a subida do desemprego e os cortes de alguns benefícios e dos salários. Mas acredito que os pedidos de ajuda venham a aumentar se a Euribor continuar a subir", garante a especialista. E adianta: "Os pedidos de ajuda vão aumentar até porque as famílias já não podem contar com a moratória que o Estado concedeu no passado para apoiar os desempregados". Os últimos dados preliminares da Deco mostram que o número de pedidos de ajuda que o gabinete de apoio ao sobreendividado recebeu este ano aumentou 30%, face ao mesmo período de 2010. Recorde-se que os últimos números do Banco de Portugal, relativos a Janeiro deste ano, dão conta de que o crédito malparado à habitação não só continua em máximos históricos, como aumentou 57 milhões no espaço de um mês.
In: Diário Económico